quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

Desde que comecei a estudar Saxofone , descobri que - além do imenso prazer que o instrumento proporciona a quem ousa toca-lo, é igualmente prazeiroso pesquisar o assunto. De logo desejei ter um Selmer Mark VI (não confundir com o Selmer Bundy, fabricado nos EUA - a história dos irmãos Selmer, o francês e o norteamericano, conto outro dia). Vi que a maioria dos saxofonistas idolatra o Mark VI , tido por quase todos como o melhor Sax jamais fabricado. Para fazer um contraponto , transcrevo esse artigo do professor Márcio Rangel. Espero não contribuir para destruir o sonho de nenhum saxofonista. Ainda pretendo tocar nessa lenda.



MARK VI: MITO OU REALIDADE

Por: Marcio Rangel
Já se vão mais de 160 anos desde a invenção do saxofone. Nesse período, nenhum mito é tão expressivo quanto os que cercam os famosos Mark VI. Mas muitos músicos não sabem de fato o que é real e o que é lenda.
Afinal, o que são os Mark VI? O famigerado modelo nada mais é que um dos saxofones produzidos pela Henri Selmer Paris a partir de 1954. Eles foram fabricados até o ano de 1974, quando foram substituídos pelo modelo Mark VII.
O namoro da Selmer Paris com os saxofones começou na verdade em 1922, com o lançamento do Model 22 e, quatro anos depois, do Model 26. As novidades da empresa acabaram por entrar na era de ouro das big bands com novos modelos, como o Cigar Cutter e o Radio Improved.
Somente em 1936 a marca começou a despontar entre os melhores fabricantes de saxofones, com o lançamento do modelo Balanced Action. Esse instrumento trouxe grandes inovações técnicas e ergonômicas, como a mudança das notas graves – Si bemol, Si e Dó sustenido – para o lado direito da campana, o que tornou o acionamento o mecanismo dos graves e também do Sol sustenido mais ágil.
Todas essas melhorias constituíram um marco nos saxofones da época. Aos poucos, outras inovações foram inseridas, como o deslocamento da campana e outros detalhes em alguns mecanismos. As mudanças foram patenteadas pela Selmer e acabaram por ditar os padrões de projetos de saxofones fabricados depois do período e, claro, nos dias de hoje.
Na linha das melhorias, a Selmer lançou, em 1948, o modelo Super Action ou Super Balanced Action, que não recebeu os mesmos aplausos que se antecessor. Finalmente, em 1954, a marca voltou a brilhar com o modelo que ficaria muito famoso, o Mark VI. O lançamento firmou a linha Selmer Paris entre os melhores saxofones do mercado, fama que dura até hoje e se estende inclusive aos primos homônimos o instrumento, fabricados pela Selmer nos Estados Unidos e na Ásia. Por isso mesmo é muito comum encontrar vendedores que supervalorizam o instrumento somente por trazer o nome Selmer, o que gera grande confusão. Vale a pena tocar no assunto para esclarecer os fatos e derrubar mitos, como o que diz que os saxofones Selmer são os melhores do mundo.
O PRIMEIRO MITO
Primeiramente, caracterizar qualquer instrumento de melhor do mundo é forçar a barra. Isso é pura lenda. Todos os modelos e marcas de saxofones têm seus exemplares bons e ruins. É comum, por exemplo, testar dois saxofones exatamente iguais e notar diferenças importantes entre eles. Eu mesmo já constatei o fato diversas vezes, inclusive com instrumentos zerados na loja.
Até o fechamento desta edição, figuravam no site da Selmer (WWW.selmer.com) três links distintos. O primeiro indicava os saxofones Selmer Paris, outro mostrava os saxofones Selmer USA e havia ainda chamadas distintas para os modelos La Voix e La Vie. A linha Selmer Paris é definida no site como de saxofones profissionais, vindos da fábrica situada na França. Já os instrumentos mostrados na página da Selmer Estados Unidos são caracterizados como saxofones intermediários e para estudantes. Os outros não trazem mais detalhes no site, mas sabemos que são fruto da Conn-Selmer Incorporation, que lançou modelos básicos, simples e baratos como os Prelude, produzidos em Taiwan. Na seqüência foram lançados modelos um pouco melhores, o La Voix e o La Vie, também fabricados na Ásia.
Diante das considerações publicadas no site da empresa, é possível ter uma idéia da grande diferença de qualidade e de preços dos diversos modelos de saxofones Selmer. Devemos pensar também sobre quais são os parâmetros para afirmar que determinada marca ou modelo de saxofone é o melhor do mundo. São tantas as variáveis que a análise passa a ser muito subjetiva.
QUANDO A LENDA ENCONTRA A MODERNIDADE
Os modelos que vieram depois do Mark VI não fizeram tanto sucesso e perderam mercado para outros fabricantes de peso, como as fábricas japonesas da Yamaha e da Yanagisawa. Mesmo assim, a essa altura, a lenda dos Mark VI foi subindo a cabeça dos saxofonistas. Por isso, em uma grande jogada de marketing recente, a Selmer Paris lançou dois novos modelos no mercado: o Reference 54 e o Reference 36. Cada um deles traz no nome a referência ao ano de lançamento de seus antecessores, o Balanced Action de 1936 e o Mark VI de 1954, ambos aclamados como os melhores modelos do mundo já produzidos. Os novos saxofones surgiram em parceria com o slogam “Reference 36 54, quando a lenda encontra a modernidade”.
AS HISTÓRIAS DO MARK VI
No decorrer dos anos, vários outros mitos a respeito do Mark VI foram criados. 
Confiram alguns:
MITO 1: Os saxofones Mark VI fabricados até 1962 e cujo número de série tem apenas cinco dígitos são os melhores. A partir de 1963, os números de série passaram a ter seis algarismos.
MITO 2: Os primeiros instrumentos Mark VI são melhores, pois sua liga de metal foi fabricada a partir de sucata de peças de artilharia. Já ouvi outras variantes desse mesmo mito, como a utilização de capacetes e cartuchos de balas da Segunda Guerra Mundial para construção do sax e outros.
MITO 3: A partir de determinado número de série (cada boato cria um número diferente), a liga de metal utilizada na fabricação do Mark VI empobreceu, assim como a qualidade dos instrumentos.
MITO 4: Os últimos Mark VI fabricados não são tão bons, pois Henry Selmer morreu e ‘levou o segredo para o túmulo’.
Estes são apenas alguns dos mitos e lendas, os mais difundidos por aí. Já no primeiro contato, essas histórias podem perder sua veracidade, como a que garante que o saxofone perdeu a qualidade depois que Henry Selmer morreu. O patriarca da empresa faleceu muito antes da fabricação do modelo Mark VI.
Sobre os exemplares mais novos ou com menor número de série, o argumento pode ser relativo. Para comprovar ou refutar a afirmação, seria necessário analisar dezenas ou centenas de Mark VI diferentes, e mesmo assim, a margem de erro da experiência seria grande. Diante disso, volto a questionar: quais são os critérios para tais avaliações?
Quando testamos a afinação e a ergonomia de um sax, por exemplo, é possível expressar os resultados em dados concretos. No entanto, quando a análise entra no campo do timbre, ela invade um quesito muito importante e pessoal que não se pode avaliar.
No que tange às melhorias técnicas e ergonômicas, muitos saxofonistas e até mesmo famosos luthiers afirmam que a Selmer Paris realmente fez história e “reinventou” o instrumento. Por outro lado, ao analisar timbre, um critério muito subjetivo, essa unanimidade desaparece. Então aparecem sérios concorrentes ao Balanced Action e ao Mark VI. Instrumentos antigos, conhecidos como vintages, fazem frente ao mito e aqui podemos citar algumas marcas, como Conn Ladyface, King Super 20 e Buesher 400.
Atualmente, quando falamos de sopranos, barítonos e altos, os Mark VI não são tão preferidos assim e perdem, principalmente, para os modelos modernos.
AVERSÃO AO MARK VI?
Existe ainda um interessante mito ao avesso, ou seja, contra o modelo Mark VI. Talvez por causa de tanto exagero a respeito do assunto, algumas pessoas criaram aversão ao Mark VI e, a partir daí, surgem argumentos que tentam derrubar a fama dos instrumentos.
Um deles afirma que, com o avanço tecnológico, qualquer fábrica pode construir instrumentos iguais e até melhores que o Mark VI. A tese é bastante plausível. No entanto, ao analisarmos a forma como os saxofones são fabricados hoje em dia, podemos notar que grande parte da produção é artesanal e depende muito de mão-de-obra especializada. Isso dá mais força aos mitos que afirmam que os antigos artesãos foram deixando a Selmer e as novas pessoas responsáveis pela fabricação não tinham a mesma competência.
Vídeos e fotos circulam na internet em sites da Yamaha, Selmer Paris, Julius Keilwerth e outros mostrando as etapas de fabricação dos saxofones. Diante disso, podemos concluir que o maquinário empregado hoje em dia não é diferente do utilizado nas décadas de 1940 e 1950. A construção de instrumentos ainda fica à mercê dos próprios artesãos.
CONSIDERAÇÕES
Existem sim, modelos Mark VI maravilhosos, mas são caros e cada vez mais raros. Isso porque não são mais fabricados. Há sempre um crescente número de músicos atrás desses exemplares, que são disputados até mesmo por colecionadores que nem tocam saxofones. Sem contar a depreciação do instrumento com o passar dos anos – alguns não têm sequer conserto.
Essa efemeridade do Mark VI é um fator em relação ao qual se deve ficar atento. É que a grande procura por tais instrumentos faz com que exista no mercado um número muito maior de modelos ruins. Até mesmo algumas falsificações podem aparecer.
Ruim, bom ou excelente. Para não errar, o melhor a fazer é testar sempre. Abstenha-se do nome Mark VI ou de qualquer outro e não se deixe levar pelos mitos e histórias. Confie no seu ouvido e bom gosto. Lembre-se de que, como regra geral, cada marca de sax, seja ela famosa ou não, sempre terá os exemplares bons ou ruins.

Fonte: Revista Sax & Metais

terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

É pior do que pensava

Desiludido, Tiririca quer voltar a ser palhaço

Deputado mais votado no país em 2010, Tiririca (PR-SP) quer voltar a ser só palhaço. Desiludido com a política, ele disse à Folha que não disputará mais eleições e, findo seu mandato, em fevereiro de 2015, irá se desfiliar do PR.
Na metade da legislatura, Tiririca, que se elegeu com a promessa de descobrir o que faz um deputado, disse que já entendeu que "não dá para fazer muita coisa".
O desalento, no entanto, não é a razão para deixar o salário de R$ 26,7 mil, verba de gabinete de R$ 97.200 e direito a apresentar R$ 15 milhões em emendas.
A justificativa é a falta de tempo para se dedicar ao que mais gosta: fazer shows (que lhe rendem mais dinheiro do que a Câmara). "Eu sou artista popular. Aqui me prende muito. A procura pelos shows é enorme e não dá para fazer", afirma ele.

Tiririca

Francisco Everaldo Oliveira Silva, 45, o palhaço Tiririca, disse que deixará a política após o fim do seu mandato
Acompanhar o crescimento de sua filha de três anos é outra razão. "Esses dias ela saiu nadando, é muito massa." Pai de seis filhos, Tiririca diz que não pôde estar perto dos demais e não quer repetir o erro com a pequena.
Quando voltar aos palcos, ele promete não fazer piada sobre político. "Quando a gente está fora acha que deputado não faz nada, mas eles trabalham para caramba."
Nestes dois anos na Câmara, diz ter aprendido muito: "Aqui é uma escola. Se aprende tanto ir para o caminho legal quanto ir para o 'outro caminho" [diz não ter sido convidado a entrar]. Descobriu, porém, que política não faz parte de seu projeto pessoal.
E já deixou de lado os ternos importados (Armani e Hugo Boss) que usava para imitar boa parte dos líderes do Congresso. Adotou um visual mais moderno, que inclui paletó de veludo colorido, calça jeans e gravatas inusitadas. Agora, mandou fazer camisas personalizadas. Pediu um tecido que se adapte ao clima seco da capital.
Os novos trajes já renderam brincadeiras entre os deputados mas também ajudam Tiririca a se entrosar. No tempo em que está na Câmara, fez pelo menos oito amigos, entre eles seu candidato à presidência da Câmara, deputado Júlio Delgado (PSB-MG), que perdeu a disputa ontem: "É um cara bacana".
Sobre o fato de ainda não ter discursado na tribuna da Câmara, desconversa: "Para falar o quê? Nenhum projeto foi aprovado. No dia que for, eu subo para agradecer".

Fonte: Folha de SP
MÁRCIO FALCÃO
ANDREZA MATAIS
DE BRASÍLIA

segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

Lendas Urbanas (e Rurais)

LENDAS URBANAS (e rurais)


                        Não se sabe de onde elas surgem, como surgem e como se espalham. Mas, lendas urbanas e rurais existem em todas as sociedades. Talvez o fato decorra da simples necessidade de comunicar, própria do ser humano, ou ainda da vontade de contar uma história escabrosa – há quem extraia imenso prazer disso.
                        Lembro de algumas que povoavam o imaginário da Capital na década de sessenta do século passado. A do ladrão que soprava a fumaça do cigarro de maconha , pelo buraco da fechadura da porta e entorpecia todos os moradores, era recorrente. Dizia a lenda que, após essa providência, o amigo do alheio entrava calmamente na casa, e fazia a “limpeza”. Para evitar esse desastre, havia um antídoto: bastava deixar uma bacia de água no cômodo principal da casa, e a água “puxaria” os efeitos da fumaça entorpecente. Essa técnica foi largamente utilizada por uma secretária doméstica que trabalhava na minha casa, por mais que minha mãe considerasse uma rematada bobagem. Não tinha jeito: contrariando a orientação dos patrões, depois que todos dormiam, lá ia a fiel servidora encher de água a maior bacia da casa, e colocar na sala. Engraçado é que não se questionava um fato simples: se a fumaça era assim tão forte,  como o larápio conseguia fumar sem, ele mesmo, cair prostrado? Bem, lendas urbanas não se explicam.
                        De vez em quando também surgia o boato de que tinha sido capturado um caranguejo, sim, caranguejo mesmo, em cuja carapaça havia a imagem de Nossa Senhora nitidamente gravada. Tal , era considerado, por razões que até hoje desconheço, um forte indício do fim do mundo. Sempre aparecia alguém que tinha um primo, que era amigo do cunhado do tio da pessoa cujo sobrinho tinha visto o tal caranguejo. Pessoalmente nunca tive a oportunidade de vislumbrar o abençoado crustáceo.
                        Merece ser citado um cedro que derramava lágrimas milagrosas, descoberto, salvo falha de memória, no Município de Alhandra. Rapidamente formaram-se caravanas de romeiros e o sítio onde a árvore estava entrou em clima de festa. O dono até passou a cobrar um óbolo , para cobrir as despesas – dizia, aos que pretendiam contemplar o cedro chorão. Havia quem jurasse, de pés juntos, que estava curado de muitas mazelas por ter bebido as santas lágrimas.
                        Muitas das lendas referem-se à comida e suas combinações com outras , ou horários de ingestão. Assim, não se deve chupar mangas à noite, sob pena de cair doente. Se misturar com leite, então, a morte é certa. Pode encomendar a mortalha.
                        Segundo essa lógica, alguns alimentos são “carregados” , e devem ser evitados à todo o custo. O peixe albacora é o recordista em , digamos, “carrego” , seguido de perto pelos crustáceos em geral. Só devem ser ingeridos se o vivente estiver gozando de plena saúde. A ave de arribação e a galinha d’angola ficam na faixa intermediária.
                        O bode tem uma característica peculiar: não mata o seu devorador, mas, ao longo do tempo, deixa-o mouco. É isso mesmo, carne de bode provoca surdez, reza a lenda.
                        Tendo me ocorrido esta explicação pouco ortodoxa para a perda de audição, mencionei-a (em voz bem alta) ao amigo e colega Gilson Farias, que queixava-se de estar ficando surdo, em plena Livraria de Assis, no Fórum:
                        - Mas Gilson, isso não é porque você comeu muito bode quando era juiz no interior?
                        - Não , não, respondeu, é de família mesmo. Na minha família esse problema é comum.
                        Já ia me conformando com a explicação genética para a suposta redução da capacidade auditiva do amigo, quando ele acrescenta:
                        -Agora tem o seguinte, todo mundo na minha família gosta muito de bode...
Bode

domingo, 20 de janeiro de 2013

IGREJA DE SÃO FREI PEDRO GONÇALVES



IGREJA DE SÃO FREI PEDRO GONÇALVES

Restaurada em 1999-2000, graças ao Convenio Brasil-Espanha, através da Comissão Permanente de Desenvolvimento do Centro Historico de João Pessoa.
Fonte: Alvarez Ribeiro

sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

Combate ao crime organizado

Resolução do TJ permite aos juízes a formação de colegiado para decidir contra organizações criminosas

 
Na manhã desta quarta-feira (16), o Pleno do Tribunal de Justiça Paraíba aprovou, por unanimidade, Resolução 02/2013 que regulamenta a formação do colegiado para julgamento dos crimes praticados por organizações criminosas no Estado. Com a aprovação do ato, a Corte se adequa à Lei Federal nº 12.694/12 que permite aos juízes, no âmbito do primeiro grau, decidirem pela formação de colegiado para a prática de qualquer ato processual em feitos ou procedimentos que tenham por objeto crimes praticados por organizações criminosas.
 Ao apresentar o projeto de resolução, o presidente do Poder Judiciário estadual, desembargador Abraham Lincoln da Cunha Ramos, observou que esta regulamentação era aguardada pelos magistrados e que trará maior segurança e isenção aos juízes que, no exercício da jurisdição criminal, se afrontam com o crime organizado.
 Conforme a norma estabelecida, o juiz poderá instaurar o colegiado, indicando os motivos e as circunstâncias que acarretam risco à sua integridade física ou de seus familiares em decisão fundamentada, da qual será dado conhecimento ao vice-presidente do Tribunal, que será o relator do procedimento. O colegiado será formado pelo juiz do processo e por dois outros magistrados escolhidos por sorteio eletrônico, em plenário, dentre aqueles de competência criminal na área da circunscrição do juízo originário.
 O colegiado poderá deliberar sobre concessão de liberdade provisória ou revogação de prisão, sentença, progressão ou regressão de regime de cumprimento de pena, concessão de liberdade condicional, transferência de preso para estabelecimento prisional de segurança máxima e inclusão do preso no regime disciplinar diferenciado.
 As reuniões presenciais serão realizadas na sede da comarca do juiz que instaurou o colegiado e poderão ser sigilosas sempre que houver risco de que a publicidade resulte em prejuízo à eficácia da decisão judicial. Já a decisão do colegiado é una e deverá ser firmada, sem exceção, por todos os seus integrantes, dela não constando nenhuma referência a voto divergente de qualquer membro.
Fonte: TJPB/Gecom/Marcus Vinícius Leite

sábado, 12 de janeiro de 2013



PARE DE TOMAR A PÍLULA



                                                                       Hermance Gomes Pereira


                        O livro do jornalista e historiador Paulo César de Araújo – EU NÃO SOU CACHORRO NÃO, ed. Record, Rio de Janeiro, 2002 – supre com competência séria lacuna na historiografia da música popular brasileira. Até então, ninguém tinha notícia (exceto pesquisadores minuciosos como Adhailton Lacet) que os cantores e compositores da chamada “música cafona” também enfrentaram com galhardia o regime de exceção imposto ao Brasil em 1964.  Este, aliás, o subtítulo da obra: “Música popular cafona e Ditadura Militar”.
                        Já foram gastas toneladas de papel e galões de tinta para imprimir livros, revistas, tratados, teses, análises críticas e artigos sobre a censura e perseguição à Chico Buarque, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Geraldo Vandré e outros compositores nacionais insurgidos contra a quartelada. Oriundos da classe média e sobraçando diplomas universitários, certamente escreveram uma das mais belas páginas da nossa música. Pena que eram pouco ouvidos. Especializaram-se na “linguagem de fresta” para driblar a censura. O que conseguia passar pelas frestas deixadas pelos censores, era gravado. Chico Buarque passou até a assinar algumas letras como “Julinho da Adelaide” , ludibriando os censores de plantão.
                        Ninguém falou , entretanto, de Odair José, Fernando Mendes, Luis Ayrão, Benito de Paula, Waldick Soriano, Nelson Ned, Agnaldo Timóteo, Wando, Paulo Sérgio e tantos  outros, igualmente censurados e perseguidos.
                        A omissão cheira a preconceito barato. Afinal, Odair José era conhecido como o “Rei das empregadas” ou o “cantor das putas”. Nelson Ned , no  auge do politicamente incorreto, era chamado pela crítica de “anãozinho ridículo”. Todos, sem exceção, originários da classe operária.
                        Paulo César Araújo traça vasto panorama da música ,  digamos, não preferida pela elite intelectual, enquanto instrumento de protesto contra o regime militar. Afinal, se a belíssima “Apesar de você” (apesar de você / amanhã há de ser outro dia) foi censurada, também “Treze anos” (treze anos eu te aturo e não agüento mais / não há Cristo que suporte e eu não suporto mais) de Luis Ayrão também foi proibida. Naquele ano, 1977, a “Revolução” completava treze anos.
                        Odair José vivia às turras com os militares. Quando o governo entendeu de incentivar o planejamento familiar, inclusive distribuindo anticoncepcionais (na verdade seguindo orientação internacional que não via com bons olhos a explosão demográfica na América Latina) , candidamente cantou: “pare de tomar a pílula  / ela não deixa nosso filho nascer”. Imediatamente sucesso nacional, “a pílula” acabou proibida e liberada tantas vezes, que ninguém sabia ao certo se podia tocar ou não. Em vários shows, a equipe de plantão da Polícia Federal  advertia: “hoje não pode cantar a pílula”. Pouco adiantava, a platéia começava a cantar. O artista até tentava: “pelo amor de Deus gente, essa eu não posso cantar”, mas não tinha jeito, acabava cantando. Já saía direito para o Departamento, para mais um  interrogatório sobre suas atividades subversivas.
                        Waldick Soriano, talvez o cantor mais estigmatizado pela elite intelectual em todos os tempos, também  sofreu seu quinhão. Não bastasse o preconceito quanto à qualidade de sua obra, os “gênios” da censura implicaram com  o bolero “Tortura de Amor”  (hoje que a noite está calma/ e que minh’alma esperava por ti / apareceste afinal / torturando este ser que te adora). Justificativa: Na capa da Revista Veja, no começo do Governo Médici, estava a manchete: “O Presidente não admite torturas”.
                        A repressão não se dava só por motivos políticos.  Morais também valiam. Agnaldo Timóteo lutou para conseguir liberação de “Galeria do Amor” (numa noite de insônia saí / procurando emoções diferentes), que fazia alusão à homossexualidade  e à famosa Galeria Alaska, conhecido reduto gay das noites cariocas.
                        Odair José, de novo, consegue desagradar todo mundo. Em pleno debate sobre a implantação do divórcio no Brasil, discussão acirrada e idéia fortemente combatida pela Igreja Católica, singelamente lança “O casamento” (José nasceu em Belém e é carpinteiro/ Maria uma  simples moça caseira/ e hoje vão se casar/ pois não demora eles vão ser pais/ e isso não pode esperar). Para completar, Odair disse em entrevista: “se o Pai escolheu José e Maria, que não eram casados, para que daquela união nascesse o Salvador, é sinal de que o casamento não é tão importante assim”. Foi demais. Católicos enfurecidos insistiam em querer surrar o franzino cantor em qualquer lugar. Um padre de Campina Grande ameaçou excomunga-lo. A música, evidentemente, foi proibida.
                        Mas o divórcio era irreversível em  terras brasileiras. Cláudia Barroso lança o bolero “Duas Almas”: “o homem que eu amo é proibido / o homem que eu amo é casado  e  foi insistente com outro bolero, “Mulher sem  nome”: “me chamam de mulher sem  nome/ porque gosto de um  homem que tem outra mulher). Odair arrematou o debate com “Agora sou livre” (agora sou livre / pro que der e vier).
                        O livro  traz ainda um registro relevante. Esses artistas, ditos “cafonas” com  suas vendagens expressivas permitiam a gravação de artistas de pouco retorno comercial, mantidos nas gravadoras apenas porque davam status e prestígio. Lindomar Castilho , Evaldo Braga e Paulo Sérgio (para não falar no indefectível Odair José) simplesmente vendiam muitas vezes mais que o “primeiro time” da MPB: Chico, Caetano, Tom  e Gil. Mais ainda, os campeões de venda possibilitavam a liberdade de criação dos monstros sagrados.
             Diz o autor, textualmente: “João Gilberto, por exemplo, talvez só tenha conseguido liberdade de criação para gravar seu primeiro disco de bossa nova na Odeon, em 1958, porque lá existia um outro cantor baiano chamado Anísio Silva, que com seus boleros sentimentais chegou a vender na época a fabulosa marca de 2 milhões de discos. Não fosse isso, e provavelmente a Odeon  não tivesse arriscado estúdio e capital com um disco de um cantor excêntrico, desconhecido e de pouco apelo comercial.”
                        É bom lembrar disso na próxima vez que ouvir “Chega de Saudades”.

domingo, 6 de janeiro de 2013

CONSELHEIROS E ASSESSORES

Hermance Gomes Pereira



                        Há tempos que assessores prestam valiosos serviços aos graúdos de diversas atividades humanas. O valor de um bom assessor é reconhecido pelos assessorados. Eles cuidam da agenda, dão consultoria, fazem trabalho burocrático e poupam o precioso tempo do chefe, que assim, dedica esse saldo temporal às questões mais importantes.
                        Não seria possível ao Don Quixote de La Mancha, por exemplo, envidar tanta energia no combate aos moinhos de ventos não fora a competente assessoria de Sancho Pança. O simplório gorducho era pragmático, e resolvia as pendengas do dia a dia, desde pernoites em estalagens e refeições, até a forragem dos animais. O ilustre fidalgo ficava, assim, livre das misérias e questiúnculas cotidianas. Pensava em Dulcinéa e espetava a lança no moinho mais próximo.
                        Aqui no Brasil, o hábito da assessoria começou cedo. Diz o historiador Eduardo Bueno que, tão logo instaurado o Governo Geral – após o fracasso do sistema de Capitanias Hereditárias – os assessores já foram devidamente nomeados e começaram a perceber os merecidos salários. O primeiro magistrado que aportou por estas bandas, Pero Borges – que havia exercido o cargo de Corregedor da Justiça em Elvas, no Alentejo, trouxe uma dúzia de funcionários para fazer funcionar a máquina do Judiciário na nova terra. Entre eles, o escrivão Brás Fernandes (40 mil reais por ano) e o meirinho Manuel Gonçalves (20 mil reais anuais). As Ordenações Manuelinas começaram a ser obedecidas. Pelo menos em tese. Diziam as más línguas que os processos não tinham fim, e talvez fosse melhor assim mesmo, pois “as sentenças eram tão arbitrárias que se se executam, têm na execução muito maiores desordens.”
                        Passados os tempos de Colônia, encontra-se no Primeiro Império marcante assessor. O Brasil estreava como país independente, e tinha seu primeiro governo autônomo. D. Pedro I não podia prescindir de assessores competentes para o árduo trabalho de fundar uma nação.
                        Nesse contexto surge a curiosa figura de Francisco Gomes, o Chalaça.
                        Era este senhor Gomes um português sem eira nem beira, que tentava a sorte no Brasil. Na vida de aventureiro em busca da fortuna, conheceu o jovem imperador numa taberna da mais baixa extração. Daí por diante, sua vida mudou por inteiro. O imperador afeiçoou-se ao homem mais velho, por seu cinismo e praticidade, e colocou-o sob sua proteção.
                        O desconhecido senhor Gomes transformou-se no Conselheiro Gomes, e recebeu da corte o apodo de Chalaça. Transformado em Conselheiro Imperial, Chalaça exerceu com galhardia suas funções, por mais insólitas.
                        Era o Chalaça o encarregado de descobrir mulheres para o imperador, intermediar os encontros, ocultar as provas dos olhos da imperatriz, e, quando necessário, apaziguar maridos e recompensar regiamente pais furiosos. Dotado de invulgar ceticismo, Gomes encarava com naturalidade sua atribuições, e não deixava de aproveitar, quando podia, os sobejos imperiais.
                        Existem algumas biografias publicadas sobre o tal Conselheiro, porém, nenhuma melhor que a de José Roberto Torero : Galantes Memórias e Admiráveis Aventuras do Virtuoso Conselheiro Gomes, o CHALAÇA (Ed. Objetiva, Rio de Janeiro).
                        Tratam-se de memórias romanceadas, com reconstituições livres – sem qualquer rigor científico (aliás, rigor científico não é a proposta do autor) de situações e diálogos absolutamente verossimilhantes. Resta evidente que o autor fez extensa pesquisa em torno da personagem histórica, mas, reconstituiu trechos de sua vida com liberdade literária.
                        E haja liberdade, o livro começa com um texto de apresentação do próprio D. Pedro I, devidamente “psicografado”. Diz o Imperador sobre seu assessor: “Houve quem o chamasse de alcoviteiro e safardana, mas tais acusações não passam de calúnias. Se o Chalaça – era esse seu apelido – conseguiu ascender de simples serviçal a um dos homens mais influentes do Império Brasileiro, isso aconteceu principalmente graças à sua privilegiada inteligência. Além de habilidoso conselheiro, este meu grande companheiro foi também um brilhante filósofo, conforme demonstram algumas de suas teorias que aqui estão. Como exemplo cito aquela na qual ele estabelece a profunda relação entre o fluxo sangüíneo e o funcionamento do cérebro no momento da cópula, o que explica tantas e tantas atitudes masculinas.”
                        O Chalaça acompanhou D. Pedro I no auge e na queda. Com ele retornou a Portugal depois da abdicação, com ele combateu na guerra contra o usurpador D. Miguel. É bem verdade que procurou ficar longe dos combates mais sangrentos. A restauração do trono português com a vitória dos legalistas e início do reinado de Dona Maria II, parecem ter liquidado com as últimas forças de D. Pedro I (D. Pedro IV em Portugal). Antes de morrer, porém, deixa o Chalaça como procurador de seus filhos menores. Prova inequívoca de confiança.
                        Sempre zeloso de suas responsabilidades, o Chalaça acaba por casar com a bela e jovem viúva, ex-imperatriz do Brasil, Duquesa  Amélia de Leuchtenberg. Como disse D. Pedro, “um maganão, esse Chalaça”.
Retrato do Conselheiro Francisco Gomes da Silva, "O Chalaça". Óleo sobre tela, Séc. XIX , Museu Histórico Nacional, autor desconhecido.